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Os fios brilhantes de uma tradição cultural
Tecelões guatemaltecos mudam para preservar





ROGER HAMILTON

Num pátio ensolarado, três gerações de mulheres se ajoelham sobre esteiras, criando complexos padrões com fios coloridos. As duas mulheres mais idosas, vestidas com os tradicionais huipiles, tecem em teares manuais, amarrados com tiras à cintura e a vigas de madeira que sustentam o teto. A neta, em uniforme escolar, está ali para aprender.

A tecelagem tradicional está bem viva em Santo Domingo Xenacoj e em muitas outras aldeias das regiões montanhosas da Guatemala. Assim é, apesar da televisão e da economia global, de séculos de guerra e de pobreza e da oposição aberta por parte de elementos "modernizadores" da sociedade, como um historiador guatemalteco que chamou esse artesanato de prova de uma "mentalidade arcaica e atrasada".

Hoje, celebramos essas mulheres (esse tipo de tecelagem é atividade exclusiva das mulheres), não apenas pela beleza de suas criações, mas também como transmissoras de valores culturais.

Mas tradicional não significa estático, nas montanhas da Guatemala ou em qualquer outro lugar do mundo. Toda expressão artística genuína é dinâmica e o mundo dos têxteis guatemaltecos, o seu modo de produção e o seu papel na sociedade estão em constante mudança.

Esse ponto foi tratado com seriedade em uma recente palestra proferida por Ann Rowe, curadora do Museu de Têxteis de Washington, D.C., na sede do BID nessa cidade. Sua apresentação sobre tecelagem e vestuário das mulheres de Chimaltenango, Guatemala, foi feita em conjunto com uma exposição de têxteis e entalhes em madeira daquele país, à mostra na galeria de arte do Centro Cultural do Banco.

Menos fiação, mais tecelagem.
Uma mudança importante ocorreu em relação ao material. Embora os tecelões guatemaltecos modernos continuem usando o algodão, como faziam seus predecessores pré-colombianos, hoje se usa quase que exclusivamente o fio produzido comercialmente que se tornou disponível depois da II Guerra Mundial. As mulheres não gastam mais o tempo fiando laboriosamente e tingindo o fio com substâncias naturais extraídas de plantas, animais e minerais. Embora os peritos não-indígenas lamentem a perda da riqueza e das imperfeições sutis das tinturas naturais, o mesmo não ocorre com os tecelões. Segundo Rowe, "quanto menos tempo fiando, mais tempo sobra para tecer". O resultado são desenhos maiores e mais elaborados, que algumas vezes cobrem inteiramente o tecido básico.

Como muitos artesãos tradicionais, as mulheres guatemaltecas têm poucos escrúpulos na adaptação de novos desenhos. Usando uma técnica de brocado em que os fios se alinham por igual em fileiras, os tecelões podem duplicar facilmente os desenhos em papel milimetrado tirados de livros de padrões europeus. Antes de se falar de corrupção das tradições culturais, deve-se levar em conta que alguns dos desenhos dos tapetes caríssimos e altamente elogiados feitos pelos índios navajos dos Estados Unidos são copiados de tapeçarias do Oriente Médio.

As mulheres também têm sido influenciadas pela moda européia em matéria de roupa. Segundo Rowe, antigamente as mulheres preferiam os seus huipiles cortados retos nas laterais, que resultava numa aparência de maior robustez, denotando prosperidade e abundância de alimentos. Hoje, a preferência é por huipiles mais afunilados na cintura, presos com um cinto estreito em vez das faixas largas usadas antigamente.

A tecnologia de produção de tecidos também mudou. O tear a pedal, ainda operado manualmente mas muito mais veloz do que o seu congênere mais antigo, há muito vem sendo usado em escala comercial na confecção de pano para saias de mulheres. A tecelagem com tear a pedal é uma ocupação exclusivamente masculina, uma divisão de trabalho que Rowe afirma ter existido na Europa medieval, onde as mulheres teciam em teares manuais verticais em casa até a entrada em cena do tear a pedal, depois do que a tecelagem se tornou uma profissão masculina.

Embora os tecidos feitos em teares a pedal ainda possam ser considerados feitos a mão, outras inovações na fabricação encerram promessas menos estéticas. Os desenhos são produzidos em escala cada vez maior em máquinas de bordar, por exemplo, e muitas mães estão comprando huipiles para suas filhas em vez de fazê-los em casa. Segundo Rowe, qualquer mãe moderna se identificaria com as razões dessa mudança: eles saem mais baratos e, em nossos dias, em que todo mundo tem pressa, quem tem tempo para tecer?



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